"SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.(Sl 131)

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domingo, 12 de setembro de 2010

Escatologia Individual - Esboço


Mogi das Cruzes, setembro,2010

Escatologia Individual

A MORTE

A Escatologia individual considera aquilo que é dado como certo na existência das pessoas. Logo, o primeiro ponto a ser considerado é a morte. O adágio popular leva o homem a saber que "da morte ninguém escapa". Mesmo que a experiência objetiva da morte não seja estendida a todos, conforme às Escrituras, podemos afirmar que em regra geral todos se depararão com ela. 
Compreendê-la, pois, é de vital importância dentro do propósito da Escatologia individual. Devemos, primeiramente, identificá-la, quanto possível por sua dimensão: 
(1) a dimensão física ou natural que todos podem observá-la; 
(2) a dimensão espiritual onde, pela Revelação e a experiência dos santos na regeneração, pode-se  efetivamente compreendê-la.
O texto de 1 Tm 5:6:
 “entretanto, a que se entrega aos prazeres, mesmo viva, está morta.”
oferece o ensino de morte e vida em uma mesma pessoa. O contexto mostra que pessoas que vivem desordenadamente, à parte da santidade exigida por Deus estão vivas sob determinado aspecto, mas mortas sob outro. Necessário é definir sob qual aspecto há vida, e sob qual há morte. Recorreremos ao livro de Gênesis para caminhar em direção a compreensão do texto supra. A seguir a advertência divina feita a Adão (Gn 2.17): 
"mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás". 
Há eventos que ocorreram que permitirão concluirmos: 

(1) Adão foi expulso do do Jardim, conforme Gn 3:24: 
"E havendo lançado fora o homem, pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins, e uma espada flamejante que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida".
Depreende-se que a partir desse momento o homem ficou privado da árvore da vida, uma dimensão da morte aqui nos é revelada. 

(2) Lemos ainda em Gn 5:5: 
"Todos os dias que Adão viveu foram novecentos e trinta anos; e morreu."



O contraste entre os termos "viveu e morreu", oferece-nos com clareza que a morte de Adão ocorreu conforme observamos em todos os nascidos. 
Ao primeiro evento, atribuímos o nome de morte espiritual, pois ocorreu quando da quebra da unidade entre o Autor da vida e o homem. Morte que Adão experimentou imediatamente após sua transgressão, o que, por sua vez, nos obriga afirmar a existência da vida em sua dimensão espiritual.
Ao segundo, chamamos de morte natural ou física, ocorre quando quebra da unidade constitucional do homem, a saber, parte material e parte imaterial da criatura. Morte essa que Adão experimentou mediatamente após novecentos e trinta anos de vida, o que nos obriga afirmar a dimensão da vida física ou natural. Em relação à morte natural, 
Salomão retratou-a no livro de Eclesiastes, com a visível separação do corpo (pó, referenciando-se à origem do corpo) e do espírito. 


“e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. (Ec 12:7)


Nossa existência é uma herança passada de geração a geração desde de Adão, portanto herdamos de nossos pais as duas dimensões da existência - natural e espiritual. Nascemos, estamos vivos na dimensão natural, mas mortos, na dimensão espiritual, o que está de acordo com o texto inicial, e ainda com: 
"Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente".(1Co 2:14) 
Assim, a morte espiritual é evidenciada pela rejeição das verdades bíblicas, em virtude da incapacidade natural do homem em discerni-las. Logo mesmo viva (natural) está morta espiritual. Esta condição é também conhecida como Depravação Total. Sendo comum a todos descendentes de Adão, conforme Rm 5:18, que diz: 
"Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida." 
Observe o contraste entre "juízo para condenação" e "graça para justificação e vida".  Podemos concluir que a morte espiritual é ausência de relacionamento com Deus, que toda a humanidade herda por natureza. 
O restabelecimento da vida é feito por um ato exclusivo, livre e soberano de Deus que é a Regeneração (União com Cristo), que como consequência produzirá a fé.  
Portanto, vida e morte NÃO devem ser entendidas como EXISTÊNCIA e NÃO-EXISTÊNCIA, mas sim, como união ou separação de Deus, ambas com existência, ou seja, com consciência. A vida é a existência em unidade com Deus, portanto morte é a existência separada de Deus. Compartilha desta posição Erickson :  
“A morte e a vida, de acordo com as Escrituras, não devem ser entendidos como existência e não-existência, mas como dois estados de existência; não é como costumamos imaginar, extinção.”[1]


O ESTADO INTERMEDIÁRIO
Este tópico trata do intervalo de tempo entre a morte física e a ressurreição, à guisa da Revelação.
temos dificuldades nesta doutrina, a primeira é a escassez de material escriturístico para sua plena sistematização. A segunda, é a perspectiva da Teologia Liberal que influenciou todas as gerações a partir da segunda metade do século XIX, que apontava contrariamente à ressurreição física, contudo afirmava  a imortalidade da alma. Doutro lado a Neo-ortodoxia veio com um conceito de ressurreição necessária, que apregoava que a existência humana exige corporalidade, o que implicava na não existência da alma separada do corpo. 


O Liberalismo, com sua NÃO RESSURREIÇÃO, e a Neo-ortodoxia com a IMPOSSIBILIDADE DA EXISTÊNCIA REAL FORA DO CORPO são os dois falsos conceitos que contribuem negativamente para a aceitação desta doutrina.
Devemos tomar como ponto de partida uma verdade das Escrituras: Há um estado intermediário e que ele é inadequado ou transitório, mas real. Pois o apóstolo expectava por um revestimento, onde é clara a alusão ao corpo ressurrecto. 
"E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial; ..[..]..  , para que o mortal seja absorvido pela vida". (2 Co 5:2-4)
Na ressurreição dar-se-á este revestimento (1 Co 15), quando receberemos um corpo aperfeiçoado, eterno. A existência deste estado é claramente mostrada no Evangelho de Lucas 16.22-24.


"Aconteceu morrer o mendigo ..[..].. morreu também o rico e foi sepultado ..[..]... estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama".

Vemos que ambos, Abraão, o rico e Lázaro, passaram pela morte, porém se encontram em situações totalmente diferentes. O rico demonstra consciência mesmo pós a morte: Reconhece Abraão, expressa seu tormento, suplica por algo que amenizasse sua dor e sabe quem é Lázaro e de que ele seria capaz de fazer. Esta passagem permite afirmar da existência de vida consciente após a morte. Podemos inferir que a condição do rico, pelo menos, era de desencarnado.

"..[..].. morreu também o rico e foi sepultado".(v. 22)
Concluímos que o estado Intermediário, ou seja o intervalo de tempo entre a morte e a ressurreição é caracterizada por vida consciente. E pessoas que neste estado se encontram gozam do consolo e a expectação da ressurreição, enquanto outros se encontram em tormentos. Erickson diz :


"Entre a morte e a ressurreição, há um estado intermediário em que crentes e incrédulos experimentam, respectivamente a presença e a ausência de Deus." [2]
[1] M. ERICKSON, Introdução à Teologia Sistemática, p. 484.
[2] M. ERICKSON, Introdução à Teologia Sistemática, p. 493.

9 comentários:

  1. Lembre-se tão somente do sentido parabólico da narrativa do Rico e do Lázaro. Igualmente, considere, ainda, a afirmação apostólica em 1ª Timóteo 6:16, que forçosamente nos leva a crer na imortalidade condicional.
    Abraços.

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  2. Rodrgio,

    obrigado pelo comentário.
    Ainda que a passagem de Lucas fosse parábola, seu ensino deve ser considerado;
    quanto ao texto referido de 1 Tm, forçosamente me leva a crer na imortalidade de Cristo ser particular, SEMPRE EXISTIU. Sem relacioná-la a qualquer condicionalidade relativa a alma.
    A despeito que este tema, imortalidade da alma, não faz parte da doutrina supra.
    Mas, fico grato pela sua contribuição, e fica aberto o espaço para contra argumentar.

    Em Cristo

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  3. Paulo,

    é um problema essa questão da imortalidade da alma, porque há muitos cristãos que consideram não sê-la imortal; ao ponto em que a alma morre juntamente com o corpo, e somente retornará à vida quando da ressurreição. Parece-me uma daquelas doutrinas bem próximas do "samba-do-crioulo-doido" [rsrs].

    Entendo, como você, que há dois tipos de morte: a espiritual é a separação de Deus, portanto, os que foram regenerados através de Cristo, jamais morrerão. É o que está escrito: "E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão" [Jo 10.28], e ainda: "Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna" [Jo 6.47].

    Então, como é possível se ter a vida eterna e morrer? Há um sério conflito aqui.

    De outra forma, temos o exemplo da transfiguração, em que Moisés e Elias aparecem diante dos apóstolos, de tal forma que eles os reconheceram como tais. Alguns alegarão que Elias foi arrebatado em corpo e alma, mas não é o caso de Moisés, que morreu fisicamente, mas falava com o Senhor no monte, juntamente com Elias [Mt 17.3]. Ora, se a alma é mortal do ponto de vista de não-existência, o que os apóstolos viram foi uma ilusão, uma alografia, o que desqualifica o texto bíblico. Acredito que nenhum cristão bíblico aventure-se a afirme tamanha besteira.

    Da mesma forma, a parábola do Rico e Lázaro não pode ser lida como uma alegoria, mas como um princípio claramente definido pelo Senhor, de que há consciência e existência na alma enquanto no estado intermediário.

    Parabéns pela clareza de sua exposição.

    Grande abraço, meu irmão!

    Cristo o abençoe!

    PS: Posso republicá-lo no "Guerra pela Verdade"?

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  4. Amado Isah,

    1. Apesar de discordar a respeito da passagem de Lucas ser parábola, mas ainda que o fosse, seus ensinos têm a autoridade bíblica como qualquer um outro das Escrituras. Nele verificamos que não há fundamento para a doutrina do "sono da alma";
    2. Entendo que a idéia da doutrina do sono da alma, veio de passagens figuradas - eufemismos. Mas que é possível verificar sua fragilidade em (Jo 11:13-14)
    Mas Jesus falara da sua morte; eles, porém, entenderam que falava do repouso do sono.Então Jesus lhes disse claramente: Lázaro morreu;
    3. Quanto a repostagem em seu blog, não há necessidade de renovar sua autorização, pois ela ela irrevogável.

    Em Cristo.

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  5. Paulo,

    obrigado pelo "irrevogável"; muito me honra.

    Abraços.

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  6. Caro Paulo

    Muito bom o seu texto.
    Escreves muito bem.
    És "zen" ao escrever, e não tão dogmático como o Jorge.
    Se bem que eu gosto do Jorge e do Vincent justamente por serem dogmáticos mais contundentes... dá boas brigas, mas também é um estilo de escrita que me agrada.

    Sobre seu texto nada a retocar.

    Alguns pitacos sobre o assunto:

    - Acho que morte espiritual é um pouco mais complexa do que parece;

    - Entendo que mesmo morto, em quase todos os aspectos o cara continua a existir imaterialmente (ou espiritualmente);

    - O rico no tormento, estava morto fisicamente, morto espiritualmente, mas vivo conscientemente dos tormentos que passava;

    - O ímpio antes no novo nascimento, está vivo fisicamente, morto espiritualmente (para Deus), mas vivo espiritualmente pois o cara não é só parte material;

    - Se disserem que na alma é que está a parte imaterial... complica, acabamos tricotômicos e a Bíblia parece usar alma/espírito de forma intercambiável;

    - Não sei se fui claro, mas é que mesmo morto espiritualmente o cara ainda vive espiritualmente de alguma forma pois sua parte imaterial ainda vive junto da parte física;

    - Gosto então quando falas que a morte espiritual significa separação de Deus, mas o cara ainda vive espiritualmente mesmo separado de Deus pois emoção, razão etc... é fartamente na Bíblia atribuído ao espírito;

    - E mesmo a 2a. morte, quando forem lançados no lago de fogo para tormentos eternos, mesmo ali a vida espiritual (imaterial) ainda continua, pois o cara vai ter consciência dos tormentos, logo vivo;

    Então tendo a crer que mesmo morto espiritualmente, o cara ainda é espiritualmente vivo do ponto de vista da existência e consciência.

    É um morto-vivo.

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  7. Irmão Oliveira,

    é um prazer tê-lo por aqui.

    parece que a questão fica na definição de existência e vida.
    Não se pode afirmar que uma pessoa separada de Deus tem vida, mas sim existência (consciência).

    O que ocorre com o rico em Lucas é que ele continuava existindo, mas vida (biblicamente) ele não tinha - nem física, nem espiritual.

    Em Cristo

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  8. Talvez...

    Mas quero crer que a existência consciente (no estado intermediário) pressupõe que o cara está vivendo (vivenciando) de alguma forma.

    Não é vida física pois o corpo está morto.
    Não é vida espiritual em Cristo, pois a vida (Jesus) não vive neles.
    Mas talvez seja uma vida espiritual sem Cristo, do ponto de vista da existência consciente, pois a vida (Jesus) subsiste neles de tal forma que continuem a vivenciar a sua consciência e tenham exata noção dos tormentos, pensem, falem, etc... (tudo o que o rico fazia).

    É um assunto interessante.

    Lembras de algum versículo bíblico que dê base para afirmação de que "Não se pode afirmar que uma pessoa separada de Deus tem vida, mas sim existência (consciência)"?

    Acho complicado aceitar que o pecador, antes do novo nascimento esteja vivendo apenas no plano natural, e que o espírito (parte imaterial) esteja totalmente morta (para entender o Evangelho está, mas para outras coisas não) pois onde fica a razão, emoção e pensamentos? No corpo ou no espírito?

    Se dissermos que só o corpo vive, mas o espírito não... então teremos que colocar a razão e emoção no corpo... mas o rico pensava no estado intermediário e ele não tinha mais o seu corpo, logo não é o caso....

    E por aí vai...

    Abraço!

    Por enquanto vou manter o entendimento de que a vida tem vários aspectos e que seja possível viver fisicamente (plano natural), viver espiritualmente do ponto de vista da existência consciente ("plano espiritual existencial"), e viver espiritualmente em Cristo ("plano espiritual pleno").

    Adão quando caiu morreu imediatamente no "plano espiritual pleno".
    Morreu 900 anos depois no plano natural.
    Mas... nunca teria morrido no "plano espiritual existencial".

    O assunto promete.

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  9. Oliveira,

    apesar de concordarmos e já termos registrado, a suma é:

    vida espiritual é a unidade com Deus e se manifesta pelo entendimento da realidade espiritual;

    vida natural é pela unidade do material e o imaterial;

    o intelecto, vontade e sentimentos são atributos da pessoa, que pode ter vida espiritual ou não; vida natural ou não;
    elas manifestam a consciência.

    quanto a "Lembras de algum versículo bíblico que dê base para afirmação de que "Não se pode afirmar que uma pessoa separada de Deus tem vida, mas sim existência (consciência)"?"

    este pode ajudar:

    Portanto, lembrai-vos que outrora vós, gentios na carne, chamam circuncisão, feita pela mão dos homens, estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.

    Note que ela fala "sem Deus no mundo", o texto se refere à nossa vida anterior a Cristo.

    Em Cristo.

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1. Seus comentários e refutações são bem vindos.
2. Por favor, faça-os sempre com base nas Escrituras, caso contrário, são opiniões pessoais, com pouco valor
3. Não modero cometários, seu temor ao Senhor deve sê-lo
As ofensas pessoais podem ser substituídas por refutações, ajudariam a todos que passam por aqui.

Em Cristo.