"SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.(Sl 131)

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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Línguas estranhas e o Livro de Atos dos Apóstolos


Apesar de agora estar nas prateleiras mais baixas do expositor das habilidades evangélicas, o dom de línguas por muito tempo representou o ápice de “poder e comunhão” com Deus. 

A cada urro vindo do púlpito - ou de qualquer lugar - despertava um intenso frenesi na multidão, que ávida por demonstração de poder, espraiavam suas “línguas estranhas” trazendo a euforia necessária – carnal - para reverberação dos “linguálatras” em meio a assembleia.


A reverência e a proclamação da palavra submetiam-se a balbúrdia circense em que era tomado o “culto a Deus”. Cada um fazia conforme seu próprio espírito concedia: gritos, gargalhadas, abraços, choros, dispunham da euforia em nome de Deus.  

Nas mentes  - e nos corpos suados - exalavam a soberba que, sem meias palavras, vociferavam o diagnóstico de morte a tudo que respirava ordem e decência.

Hoje, (espero, mas não sei) apenas um remanescente sobrevive ostentando a manutenção de tais poderes, a grande maioria daqueles “homens de deus” partiu para outro nicho espiritual ou mesmo volveu-se ao próprio vômito. 

São modismos evangélicos que fazem plantão em busca de "avivamento". Quem não lembra dos dentes de ouro? Da bênção de Toronto, com suas gargalhadas e quedas santas? A bolsa de valores M&M (Malafaia e Murdock) atribuindo o valor da alma humana? Fogueira santa? e muitos outros.

Percebe-se que o espírito de Balaão - a necessidade de projeção pessoal, o enriquecimento fácil e o desconhecimento do caráter de Deus - está presente em nosso meio, e ele contribui significativamente para essas e muitas outras “esquisitices evangélicas”.

Sim, mas e o dom de línguas  como experimentam e ensinam os pentecostais procede das Escrituras? 
Mister é questionar: As Escrituras oferecem suporte a tal prática? O que elas dizem sobre tal manifestação? Vejamos o dom de línguas nas páginas do livro de Atos dos Apóstolos.



O Livro de Atos inicia com uma sequência frenética de eventos: Há o mandamento do Senhor; a promessa de um novo batismo pela vinda do Espírito Santo; sua subida aos céus; a eleição do substituto do Apóstolo Judas; e por fim a vinda do Espírito conforme a promessa. Não sabemos em quanto tempo se deram esses fatos, mas é inegável o turbilhão da narrativa.

São desdobramentos que neste Livro se iniciam, outros são apenas sequências retomadas, portanto, iniciadas em pontos anteriores do texto sagrado.

Temos que nos curvar frente algumas necessidades:
1. Precisamos empreender cuidadosa leitura, como em um novelo de linha emaranhado, puxando linha após linha, encontrando sua sequência correta, até podermos vê-lo como novelo, um único fio. Assim, chegaremos a um veredicto que harmonizará os temas retomados ou iniciados aqui. Chegando a única verdade, e essa reflita o caráter e o propósito de Deus.

2. Precisamos de discernimento - grandeza de alma e humildade de coração - pois muitos são os enganos e falácias destes dias maus, e nossos corações tendem a cooperar com o presente século mal.

3. Precisamos de coração renovado e que o Ajudador prevaleça e as Escrituras forjem nossas mentes.

“Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne, pois as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus, para demolição de fortalezas; derribando raciocínios e todo baluarte que se ergue contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo”; (2 Co 10:3-5)

E podemos afirmar que afinal temos a mente de Cristo (1 Co 2.16)

Comecemos pelo v. 4 onde fala a respeito da PROMESSA DO PAI dita aos Apóstolos. Que promessa é referida pelo Senhor? Obtemos a resposta no v.5:

“Porque, na verdade, João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias.”

A promessa compreendia um “batismo diferente do batismo de João”, pois diz: "sereis batizados no Espírito Santo".



Há, portanto, a correspondência entre a promessa a ser cumprida - o batismo no Espírito - e o batismo que João vinha realizando em Israel.

Essa correspondência está presente em todos os Evangelhos. João, o batista, garante-nos que seu batismo com água seria substituído pelo batismo com Espírito e com fogo (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33).

“Eu, na verdade, vos batizo em água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das alparcas; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. (Lc 3.16).

Mas já àquela ocasião o cerimonial de João se mostrava transitório. João antecipa-se afirmando sua saída do cenário que se iniciava. 

"É necessário que ele cresça e que eu diminua". (Jo 3:30)

Logo João é preso (Jo 3.18-20 e Mt 4.12) encerrando seu  ministério. Essa transitoriedade logo se fez notar. 


Foi por curto espaço de tempo que João e Jesus caminharam juntos. O desconhecimento por parte de João sobre o que se cumpria em Jesus reflete esse tempo. Talvez, por isso sua dúvida a respeito se Jesus seria mesmo o Cristo (Mateus 11).

Cumprido o ministério de João, o que ocorreu com o seu batismo? 


Em João 4.1-2, lemos que:

“Jesus, fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos)”.

Não temos motivos para acreditar que o batismo dos discípulos do Senhor diferisse da forma ou propósito do batismo de João. Os discípulos de Jesus passaram a batizar o “batismo de João”, familiarizados ficaram com o ritual.

É necessário resgatar o propósito do batismo iniciado por João: para que o Messias fosse manifestado a Israel (Jo 1.31).

O batismo de João está inserido na moldura do anúncio do Messias, portanto o batismo de João faz parte da revelação do Senhor Emanuel - Deus conosco - para Israel.

Que importância há no fato do batismo de João servir para anunciar Jesus para Israel? Toda, pois esse propósito foi estendido para o batismo anunciado pelo Senhor. 

Leiamos pois.

Ao anunciar-lhes o batismo no Espírito Santo diz:
“mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias” (1.5)

E depois, ainda sobre o batismo diz (1.8):
“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-is testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra”.

O batismo no Espírito Santo capacitaria aos discípulos para testemunhar de Cristo em Jerusalém, na Judeia, Samaria e até os confins da terra.

Apenas pela completa falta de temor e honestidade é possível esquivar-se que o batismo no Espírito Santo é infusão de poder nos discípulos para testemunhar de Cristo por toda a terra.


Há, portanto, uma correlação de propósitos entre os dois batismos: anunciar a Jesus, e agora por toda a terra. Esse ponto é a identificação e harmonia do novelo de linha.

Não me aventuro a afirmar que naquele momento tais características estivessem perfeitamente claras para os discípulos do Senhor, mas prossigamos em conhecer o Senhor. 
No Livro de Atos dos Apóstolos, cap. 2.4, está escrito sobre a chegada do Espírito Santo:
“todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas segundo concessão do Espírito Santo”;

Não há dúvidas: a vinda do Espírito Santo proporcionou aos discípulos "falar em outras línguas". Temos aqui um questionamento oportuno: Qual a natureza da língua falada - seria humana, seria angelical? No v. 11 há  o testemunho:

“como os ouvimos falar em nossas próprias línguas?”

Nos vv. 8-11 lemos os termos: “língua que nascemos”; “próprias línguas”. Há a citação de pelo menos 12 etnias ou povos neste contexto

A despeito do detalhe exegético que envolve o termo “línguas”, o registro é de   idiomas humanos


Sobejam razões – textuais e lógicas - para afirmarmos que naquele evento - dia de Pentecostes - cumpriu-se a promessa do Pai (1.5; 2.4; 3.33-34): o batismo no Espírito Santo. Como resultado deste batismo, os discípulos de Cristo passaram a falar em diversos idiomas humanos.

A corroborar com essa tese temos o cenário da época e a missão que estava sobre os ombros dos discípulos – anunciar a Cristo por toda a terra. 


Considerando que os apóstolos eram todos judeus e que havia inúmeras nações debaixo do sol onde Cristo seria proclamado, é razoável e adequado que o Espírito Santo tenha capacitado aqueles homens a falar abruptamente em idiomas estrangeiros - das nações citadas textualmente. 


As “línguas estranhas” no Livro de Atos dos Apóstolos nada mais são  que idiomas humanos. O contexto, o texto, a lógica não permitem qualquer alusão a “línguas angelicais ou extáticas”.

Apenas o espírito de Balaão é capaz de prover a energia necessária para trocar a honra de Deus pela usura, carnalidade e impiedade que sustentam os dons “pentecostais”.
Em momento oportuno considerarei o texto de 1ª Coríntios.

13 comentários:

  1. Infelizmente - existe muitas pessoas - preocupadas em se mostrar espiritual dentro da igreja , mas quando não estão na igreja , não
    testemunham em nada Jesus com suas atitudes.

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  2. Nubia,

    desculpe-me, mas não entendi seu comentário.

    O propósito do texto é apenas refutar - a falácia - o dom de línguas conforme ensinado e vivido por grupos pentecostais.

    Em Cristo.

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  3. Caro irmão,

    Esse texto é simplesmente primoroso exegeticamente. Peço a sua permissão para publicá-lo em meu blog com a devida menção ao seu nome e blog.

    Concordo com cada palavra.

    Ricardo.

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  4. Caro Irmão Ricardo

    sempre amável nas palavras.

    Os textos deste blog podem ser postados, bem como, criticados pelo Irmão.

    Obrigado pela visita.

    Em Cristo.

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  5. Visite o blog CREIO E CONFESSO (www.creioeconfesso.com).
    Um abraço.
    Rev. Agnaldo Silva Mariano
    Pastor Presbiteriano

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  6. Pr. Paulo,

    ótimo texto!

    Também é o que penso: esses "dons" servem apenas para o orgulho pessoal, manter os "crentes" na ignorância, não edificar a Igreja, não proclamar o Evangelho, e dar vazão à carnalidade.

    Não digo que todos os não-cessacionistas são incrédulos, não é isso; mas, mesmo irmãos verdadeiros [e conheço muitos], estão simplesmente errados, e precisam revogar os seus erros.

    Como disse no blog do Ricardo Mamedes, que escreveu sobre o mesmo tema, o aumento nos "dons apostólicos" não tem trazido frutos para a glória de Deus, pelo contrário, tem sido, via de regra, um escândalo para o Evangelho.

    Capitaneados pelo "novo calvinismo", Piper, Driscoll e outros têm se entregado à propaganda da não-cessação dos dons, e o que temos são igrejas cada vez mais cheias, e os homens cada vez menos arrependidos de seus pecados, cada vez mais resistentes a rejeitar o mundanismo, e obstinados em sustentar o velho homem.

    Parabéns pelo texto e reflexão.

    Abraços.

    Cristo o abençoe!

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  7. Amado Isah,

    seus comentários sempre edificam.

    Acho que a doutrina assembleiana é recheada de heresias.

    estou tentando administrar melhor meu tempo para postar a conclusão desse tema.

    EM Cristo

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  8. Irmão, boa tarde!

    Gostaria que explicasse sobre o seguinte versículo I Coríntios 14.2 - Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios.

    O versículo acima vai de encontro com o exposto na sua mensagem que diz que não "passa de idiomas humanos", por isso gostaria de melhor esclarecimento.

    Tatiana

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  9. Irmã Tatiana,

    Obrigado pelo comentário.

    Reconheço que o v. citado pela Irmã tem gerado suporte para conclusões diversas. Mas, o fato de serem línguas humanas vem da passagem de Atos conforme citado no post, e entendo que é irrefutável. Quanto a 1 Co 14.2, devemos entendê-lo à luz do que é ensinado em Atos, caso contrário afirmaremos haver duas naturezas de línguas no dom. Como isto é fora de questão precisamos analisar elementos contextuais para melhor compreensão. Pois, caso isolemos o texto de seu contexto operaremos em desacordo às regras básicas de interpretação.

    Algumas considerações sobre o texto.
    O Apóstolo tenta disciplinar o uso dos dons, e não claramente sobre a natureza dele. Mas podemos extrair algumas informações a respeito da natureza do dom de línguas no próprio texto:

    1. No v. 9 há “línguas inteligíveis”. A palavra inteligível é que “tenha significado”, portanto coloca o dom inserido no contexto da compreensão humana. E conclui o argumento fortalecendo ainda mais o argumento que são línguas humanas: “como se saberá o que se diz?”;
    2. Ao ilustrar seu argumento (v.11) é utilizado: “estrangeiro” – bárbaro no original. Mais uma vez utiliza-se que um povo, ou etnia para explicar seu argumento;

    3. E encerrando suas orientações ele adverte para que não sejamos crianças no entendimento – cognição. E traz uma profecia de Isaias em que faz alusão a povos e idiomas totalmente humanos.

    Por estes motivos – sem esquecer o Livro de Atos – acredito que o Senhor ensina que o dom de línguas é uma capacitação para pregação do Evangelho em Jerusalém, Judéia, Samaria até os confins da terra, conforme a promessa descrita em At 1.

    Em Cristo.

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  10. VOCÊ JÁ FALOU EM LÍNGUAS?

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  11. Ao Sr. Anônimo,

    confesso que falei em três situações:
    1. Quando fui aos Estados Unidos;
    2. Quando fui à Aruba e
    3. Sempre quando vou à Venezuela

    Lá eles não entendem português e preciso me comunicar.

    Em Cristo.

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  12. então linguas estranhas no caso são idiomas terrenos?

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  13. De acordo com as Escrituras sim. Apesar da falácia penteacostal.

    Mas, longe está o tempo em que discutia a questão com pessoas que, sem leitura, apresentam suas "Convicções".

    Aceito refutações com base nas escrituras.

    Em Cristo.

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1. Seus comentários e refutações são bem vindos.
2. Por favor, faça-os sempre com base nas Escrituras, caso contrário, são opiniões pessoais, com pouco valor
3. Não modero cometários, seu temor ao Senhor deve sê-lo
As ofensas pessoais podem ser substituídas por refutações, ajudariam a todos que passam por aqui.

Em Cristo.